sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Tributo ao herói desconhecido

Quando se fala em rock feito no Brasil, imediatamente se pensa na década de 80. De fato, apesar do país já contar com uma produção de rock desde os anos 50, quando Cauby Peixoto (ele mesmo, pasmem!) lançou o compacto "Rock' N' Roll' em Copacabana" (1957), foi apenas na década de 80 que o estilo se consolidou.
E quando se fala em "eighties" aqui no Brasil, fala-se muito em Legião Urbana, Capital Inicial, Titãs, Ultraje a Rigor, Biquini Cavadão, Kid Abelha, Paralamas do Sucesso e Engenheiros do Hawaii.
A Legião Urbana acabou em 1996, por conta do falecimento de seu líder e vocalista Renato Russo, mas boa parte dessa turma ainda está na ativa. Gravando acústicos, cd's e dvd's ao vivo e aos montes, lançando coletâneas e coletâneas de seus áureos sucessos, lutando contra a flacidez e o reumatismo e tendo o botox e a inabilidade das mais recentes gerações como principais aliadas.
Acontece que a maioria das pessoas que dizem gostar de rock nesse país, desconhece nomes como Agentss, Voluntários da Pátria, Cabine C, Fellini, Akira S. e as Garotas Que Erraram, Gueto, Hojerizah e Maria Angélica Não Mora Mais Aqui.
Essas bandas, juntamente com o pessoal de Brasília (a já citada Legião Urbana, Plebe Rude, Escola de Escândalos e Finis Africae), mais o Ira! e o Zero - duas bandas paulistas que alcançaram bastante sucesso, tanto comercial quanto de respaldo - formaram o pelotão Pós Punk brazuca.
Diferente da turma carioca, de letras que falavam da praia, do submundo boêmio e promíscuo do Baixo Leblon e da malandragem reinante no Rio (Herva Doce e Barão Vermelho), os "post punkers" tupiniquins traziam consigo uma bagagem com o que havia de melhor na Europa naquela época. De Joy Division, passando por Magazine, Jam, Cure, Smiths e Stranglers, os nossos roqueiros reciclaram, copiaram e cuspiram de volta toda a informação musical que fervilhava no velho continente. Repare como "Ainda é Cedo", cavalo de batalha do primeiro disco da Legião Urbana é nitidamente calcada em "A Means To An End", faixa retirada de Closer, segundo e póstumo disco do Joy Division. Aliás, Renato Russo e seus asseclas foram especialistas em chupar Joy Division, Smiths e o Cure dos primeiros anos. Ouça "Play For Today", do Cure, e responda em dez segundos com qual música da Legião ela se parece.
Claro que nem tudo era cópia ou tão descaradamente influenciado, e talvez por isso mesmo os gringos tenham descoberto o nosso Pós Punk. Tanto descobriram quanto lançaram duas coletâneas que os nativos precisam pagar uma bagatela se quiserem ter uma cópia. Estou falando de Não Wave: Brazil Post Punk 1982-1988, álbum lançado em 2005 pela gravadora Man Recordings, e que conta com a presença de Agentss (ícone do verdadeiro tecnopop nacional. pelo amor de Deus esqueça o Metrô), Mercenárias (as Slits brasileiras), Chance (deformação hermética do samba), Muzak e os reis do experimentalismo e da vanguarda, o pessoal do Vzyadoq Moe, dentre outros.
Também em 2005, a gravadora Soul Jazz lançou The Sexual Life of the Savages: Underground Post-Punk in São Paulo, Brasil. Trabalho no qual é possível encontrar (além das já citadas Mercenárias, Chance e Muzak), Akira S. e as Garotas Que Erraram, Patife Band (o grupo de Paulo Barnabé, o irmão do Arrigo), Nau (formação semi gótica de onde saiu a cantora Vange Leonel, do hit global "Noite Preta", da novela Vamp) e Smack (de sonoridade cortante e que tinha Edgard Scandurra como principal compositor).
Ouvindo esses dois trabalhos, se tem - não a impressão, mas - a certeza de que a música feita aqui no Brasil nessa época, rivalizava de igual com a produção feita na Europa. E nem vou aqui citar os EUA, que a meu ver são terceira força nesse quesito. Afinal, o que eles nos deram dentro desse estilo específico? Apenas o Mission of Burma, que eu saiba.
Também vale ressaltar a qualidade das letras dessa turma. "Mas não troquei minha boca fechada pelas suas palavras vazias.Você me fez envelhecer um ano a cada dia", canta o Finis Africae em seu maior sucesso, "Armadilha", infelizmente não presente em nenhuma das duas coletâneas. "Por que temer viver só. Já que morremos sozinhos. Você não me engana mais. Todo mal vem de você", é o que declara o Hojerizah em "Tempestade em Viena" (outra que ficou de fora). E o que dizer da maior, da que alcançou o maior sucesso comercial dentre todas essas bandas? Aquela que transpassou a fronteira do movimento e entrou na década seguinte com status de maior banda do país? Estou falando, claro, da Legião Urbana. Seus três primeiros discos são básicos, fundamentais pra se entender e sentir o Pós Punk feito em terras brasilis. "Você é tão moderno, se acha tão moderno, mas é igual a seus pais. É só questão de idade. Passando dessa fase, tanto fez e tanto faz", canta Renato Russo em "A Dança", do debut do (então) quarteto de Brasília.
Enfim: dois registros da melhor produção "underground" feita no Brasil. Desprezados e desconhecidos aqui, mas sendo aos poucos descobertos pelos gringos. A ótima música não deve mesmo ter fronteiras.
Foto: (no sentido horário, começando por cima à esquerda) Agentss (com Miguel Barella, na guitarra), Cabine C (do ex-Titãs, Ciro Pessoa), Smack (com Edgard Scandurra, na guitarra "canhota") e Akira S. e as Garotas Que Erraram.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Banda da Semana: The Drums (EUA)

O Rock, aquele estilo musical sincero, com bandas cheias de ideais e de gente que queria habitar o Hades antes dos 30 anos (coisa de poeta romântico), ao que tudo indica, morreu mesmo.
Massacrado pelo mainstream, que foi trocando o sonho de todo garoto pobre - que antes era tocar numa banda e arrebatar multidões ("Street Fighting Man", dos Stones, não me deixa mentir) - por uma limousine, um jatinho, uma mansão e um punhado de groupies.
Contribuiram também para a erradicação quase que completa do estilo, as pick ups dos Dj's, os rappers cobertos de roupas da Adidas e medalhões gigantescos, e a alienação geral da juventude, que, carente de líderes que contestassem o que quer que fosse, passaram a militar pela mera diversão propulsionada a ecstasy, oferecida pelas raves. O que era elétrico, tornou-se eletrônico. O que era dançante, se transformou em bate estaca. E o que antes dividia opiniões e marcava gerações, agora é guardado em pastas e arquivos de mp3 nos Ipods e Nanos da vida. Falando assim até parece que tudo está perdido. Não é bem por aí.
O Pós Punk, produto mais acabado do segmento que colocou o Do It Yourself! como ordem do dia, está mais vivo do que nunca. De sua fonte bebem atualmente, Franz Ferdinand, Interpol, Editors e Bravery, entre outros. Ou seja, as guitarras seguem apitando furiosamente, mas agora com o aval de baixo fazendo linha de solo, e bateria em condução dupla e bumbos a mil por hora. Traduzindo: o melhor tipo de rock pra se dançar, ouvir a caminho do trabalho, na academia, ou naquela festa repleta de It Girls interessantes.
E falando de Pós Punk... É hora de resenhar aqui uma banda que se enquadra perfeitamente nesse naipe. Trata-se do pessoal do The Drums.
A banda foi formada em 2008 no Brooklyn, em New York, por Jonathan Pierce (vocais), Jacob Graham (guitarra), Adam Kessler (guitarra) e Connor Hanwick (bateria), e fazem um som cheio de referências oitentistas, e ótimas linhas instrumentais. Tanto que são admirados tanto pela galera que frequenta os clubes, quanto pela turma das praias. Isso mesmo: Pós Punk e Surf Music.
Por enquanto eles só lançaram um disco, um EP chamado Summertime! (2009). E é desse trabalho que vieram os dois singles de maior sucesso da banda até o momento. "Let's Go Surfing" e "I Felt Stupid".
Confira "Let's Go Surfing". A música, que tem um clipe tão estranho quanto divertido (uma espécie de "Yellow", do Coldplay, só que as avessas), é levada por uma guitarra solo que lembra New Order na hora, e uma guitarra base fazendo as vezes do baixo (ué, não reparou que eles não contam com baixista na formação?) que parece ter sido extraída do álbum de estréia do Cure.
Divertido, despretensioso, dançante... Putz! Não era assim que o rock era no começo??? É... quem sabe ainda haja esperança.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Depois do rock o que virá?

É difícil confirmar a paternidade da criatura. É bastante complicado analisar seu DNA. Mas vamos meter o bedelho e tentar fazer conjecturas acerca das origens do estilo chamado de Post Rock (ou aportuguesando a coisa: Pós Rock). Comecemos, então, explicando o que é Post Rock.
Post Rock é uma vertente do rock, batizada em 1994 pelo crítico inglês Simon Reynolds, que cunhou o termo para resenhar o álbum Hex, da banda Bark Psychosis.
A princípio, o Post Rock acolhe uma gama bastante abrangente de artistas. Atualmente, dentre alguns que podemos citar, se encontram Mogwai, Stereolab, Tortoise, The Cooper Temple Clause e Fridge.
Mas os nomes deste subgênero do rock que mais se destacam são: Godspeed You! Black Emperor, Sigur Rós e Radiohead (foto)
Basicamente, estamos falando aqui de bandas que desenvolvem sua música de modo a usar mais do que simplesmente guitarras, baixo, teclado e bateria. Analisando a estrutura da música feita por estes grupos, podemos notar que seus músicos seguiram os ensinamentos dos maestros Karlheinz Stockhausen e John Cage. Ou seja, em uma canção podem haver mudanças inesperadas de andamento, estruturação fractal de acordes ou passagens, distorção insuportável seguida de silêncio abrupto ou vice e versa, e acordes eletrônicos carregados de eco e delay (os populares barulhinhos que tanto seduzem a moçada indie).
Talvez não seja de todo certo afirmar, mas é bem provável que o princípio da gestação do Post Rock tenha acontecido em 1968, quando a banda norteamericana Silver Apples lançou seu homônimo álbum de estréia.
O progressivo também deu uma grande contribuição ao seu irmão mais esquisito, através do trabalho do grupo inglês King Crimson. Alguns de seus discos contém, ainda que sutilmente, elementos do Post Rock. Sem dúvidas, Robert Fripp e sua turma ajudaram a acostumar os ouvidos humanos às esquisitices sonoras do estilo.
Outra banda que contribuiu bastante nesse sentido foi o Pink Floyd. Ummagumma, álbum de 1969 do grupo londrino liderado por Roger Waters, é um exemplo claro do conceito de Antimúsica tão difundido pelo pessoal adepto do Post Rock. Aconselho o leitor a ouvir "Sysyphus", suíte dividida em quatro partes, composta pelo saudoso e genial tecladista Richard Wright. Uma peça genuína do que na época era chamado de rock de vanguarda (nada mais que um rótulo primitivo para o Post Rock). "Several Species of Small Furry Animals Gathered Together in a Cave and Grooving with a Pict", faixa de autoria de Waters, que em cinco minutos de duração parece tudo menos algo composto por um grupo de rock. Aliás, falando em Waters, o músico era fã do trabalho de Stockhausen, e por diversas vezes declarou sua admiração pelo compositor. Brian Eno (ex-Roxy Music), com suas óperas eletrônicas, repletas de sintetizadores, é outro nome que deve ser obrigatoriamente citado.
Dentre outras bandas que contribuiram para o crescimento do Post Rock se encontram os representantes do Kraut Rock, o popularmente conhecido rock alemão. Vamos citar aqui o Kraftwerk e o Tangerine Dream (com suas incursões pela eletrônica), o Can e o Agitation Free (pelo experimentalismo), o Popol Vuh (por sua música esquizóide e espacial), Cluster, Neu e Faust (pela pulsação de seu som). Ainda na década de 80, a Alemanha continuou revelando novos seguidores da música que abraçava rock, eletrônica e barulhos indigestos e intrigantes, com o pessoal do Einstürzende Neubauten (que inclusive chegavam a usar britadeiras e furadeiras em seus shows). E nos anos 90, com o Couch.
E por falar em anos 90... Conforme dito no começo deste post, foi nessa década que finalmente este subgênero se consolidou.
Em 1997, o pessoal do Radiohead lançou Ok Computer. Álbum que delineou de uma vez por todas o Post Rock e condensou em 12 canções tudo que os post rockers sempre buscaram fazer.
A banda vinha do conforto de um segundo álbum arrebatador (The Bends), e cometeu esse belíssimo trabalho. Imagine se o Deep Blue (computador criado pela norteamericana IBM para jogar xadrez) quisesse entrar para o Pink Floyd e mandasse uma "demo" pra banda. É assim que soa Ok Computer. Ouça "Airbag" e "Subterranean Homesick Alien" e tire suas próprias conclusões.
Em 1999, os islandeses do Sigur Rós soltaram seu Ágætis byrjun, e o Godspeed You! Black Emperor lançou Lift Your Skinny Fists Like Antennas to Heaven, em 2000.
E o Post Rock segue com suas escavações nos ouvidos dos admiradores da boa música, com grande destaque. O "barulhinho" aqui, faz parte mesmo do contexto musical.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

A geração que queria crescer num botequim

Desde que os rapazes aí em cima redefiniram o conceito de rock feito por jovens e pra jovens, no Brasil, a geração atual - essa que curtiu o frescor de seus melhores anos na virada da década de 90 para a de 2000 - tem se alinhado constantemente com esse tipo de postura que eu chamo de "revivalismo caranguejo".
O leitor (se esteve em outro planeta e ainda não pode acompanhar outros posts meus aqui neste blog), é bom que fique sabendo, não vai aqui encontrar palavras de aconchego em relação a esta moçada que está aí tentando mostrar seu valor.
Acredito que esta brincadeirinha de "cantar música que vovô e vovó gostavam de ouvir" vai custar ao menos mais uns vinte anos de defasagem em relação a música cosmopolita feita lá fora.
Ou, deixemos os eufemismos de lado, que se dane o cosmopolita! Falo de música com grife jovem e universal, capaz de fazer com que o jovem, quer more na África, Tóquio, New York, Hamburgo, Estocolmo ou Manchester, bata com os pés no chão ou chacoalhe os quadris.
Não sou fã dos bandolins, cavaquinhos, cuícas ou pandeiros. Nem compactuo com letras que falam da malandragem do carioca, ou de como o samba faz as pessoas mais felizes. Nem mesmo me acalentam as canções sobre rosas que não falam. Tampouco concordo com seu cruzamento com guitarras. Chamo isso de degeneração genética da música amplificada. Sim, sou um verdadeiro eugenista da música rock (ou pop, eletrônica, que tal?) desde que ela nasceu em 1967, juntamente com o trabalho que quebrantou todos os conceitos anteriores e construiu as colunas de sustentação dos que ainda viriam: um álbum chamado Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, de uma banda chamada Beatles.
Me motivou esse post uma pequena provocação feita por uma amiga, que me mandou um scrap no orkut com o vídeo de um cantor chamado Marcos Sacramento.
Quero dizer a essa amiga que a respeito em seu gosto. Apesar de ser bastante contrário ao meu. O fato dela gostar de Marcos Sacramento, de forma alguma atrapalhará nossa amizade. Por isso, para mostrar o quanto me diverti vendo o tal vídeo, resolvi postar abaixo a resposta que dei a ela a respeito do scrap que recebi. Quem assistir ao vídeo entenderá do que estou falando.

"achei um desperdício de palco... de tão grande, esse stage reverbera tanto o som dos violões que parece que apenas dois dos três estão realmente tocando.
faltam umas pedaleiras, caixas amplificadas, umas guitarras com bastante efeitos de echo e wah-wah...
a música parece carecer de contemporaneidade. é boa de letra, mas fala de uma realidade nenhum pouco urbana.tem que saber se ele vive mesmo essa parada aí ou está cantando samba pra entrar na moda dessa geração atual, que busca credibilidade pedindo a bênção da imprensa nacionalista brasileira.
fora isso, te adoro, Sukita.
rsss
Beijo"

domingo, 10 de janeiro de 2010

Yes! Nós temos Radiohead!

Ao que parece já está virando tradição. Todo começo de ano, o Órbita nos presenteia com um som cover de responsa. Em 2009, o primeiro Superdrive do ano ficou a cargo da Casablancas, banda cover dos Strokes que - como de costume - arrebentou.
Em 2010 a Rubber Soul, manjadíssima banda que toca o repertório dos Beatles, estava escalada para abrir a temporada. Por um motivo tosco (feriado internacional e algo envolvendo o sindicato do seguranças) a apresentação da banda foi cancelada. Ótimo! Sobrou para o pessoal da Radioréi fazer o primeiro show cover do ano no Órbita.
Ótima sacada no nome, mas que gerou um pouco de confusão em ouvidos mais incautos e rendeu explicações por parte do guitarrista Felipe Lima, que teve de dizer que o nome era Radioréi, e não "Radiojegue". Tá certo que entrou em cena a tradicional molecagem cearense na hora de escolher o nome, mas "Radiojegue", convenhamos, já é exagero, né?
Voltando a falar sobre o show... E que show! Confesso que tinha lá minhas reservas quanto a execução de um repertório tão fabuloso quanto complicado de ser reproduzido. Mas minhas dúvidas cairam por terra logo nas quarta e quinta músicas.
Não que as anteriores houvessem sido mal tocadas, mas porque (mais uma vez) o pessoal do Órbita pisou feio na bola na hora de acertar o som. Acho que alguém da técnica desconhecia o Radiohead, e por isso deve ter pensado que manter a mesa de som na mesma configuração usada pelo Garfo, a banda que abriu o show com uma competente apresentação de rock instrumental, daria conta do recado. Ledo engano.
Os gritos do Felipe pedindo retorno vão entrar pros anais do desespero dos músicos que se apresentam no Órbita. Infelizmente os problemas com o som continuaram. O baixista Lucas também teve lá seus problemas, a guitarrista Camila Matos (que atiçou a curiosidade do pessoal na comunidade do Radiohead no orkut: "O Jonny Greenwood é uma mina?") foi uma das mais prejudicadas. Dada a precariedade do som de sua guitarra, pouquíssima gente deve ter ouvido algum zumbido no lugar onde deveria estar o solo de "Fake Plastic Trees", só pra citar um exemplo.
Apesar dos defeitos, vale enaltecer a coragem desses seis músicos que se deixaram levar pelo desafio de tocar Radiohead diante de uma platéia de fanáticos que conheciam as letras da banda de cor e salteado. E diante de músicos (como eu e Denis Eduardo, ex-Telerama) que estavam atentos a cada acorde ou virada de bateria, e que saíram de lá com a certeza de que foi um showzinho FODA de tão bom. Meus pessoais cumprimentos ao baterista, do qual infelizmente desconheço o nome, mas que se saiu muito bem na árdua missão de repetir de forma correta a excelente bateria de Phil Selway.
Sobre a platéia, posso dizer que em alguns momentos me senti dentro de um culto evangélico. Sem sacanagem, eu sabia o quanto os fãs do Radiohead eram fanáticos. E já fui a outros shows de covers em que a platéia se animou bastante. Só no Órbita, assisti a Casablancas (Strokes), Vanilla (Arctic Monkeys) e This Charming Man (Smiths). Mas o show de sexta foi um verdadeiro ritual de adoração. Posso citar dentre as pessoas que me cercavam que eu vi casos de gente chorando, gente cantando de mãos pra cima, e gente se tremendo. Particularmente, havia uma doida ao meu lado que espero nunca mais encontrar por aí. A garota simplesmente abanava os braços como uma insana, e por diversas vezes gerou irritação na minha esposa.
Grandes momentos do show: A interação da galera cantando o refrão de "Karma Police" em uníssono, a execução de "Paranoid Android" simplesmente perfeita (algo que eu pensava ser impossível a qualquer banda que não fosse o Radiohead), e a animação da galera, pulando divertidamente durante o refrão de "Creep".
Pessoalmente, senti falta de algumas músicas. Mais precisamente de "Planet Telex", "The Bends", "High And Dry", "Nice Dream", "Just" e "Black Star" (daquele que eu considero o melhor álbum de guitarras de todos os tempos: The Bends), e "Airbag" e "Let Down", do Ok Computer. Estranhei a ênfase dada ao repertório do In Rainbows, mas tudo bem. Fica para uma próxima vez com certeza.
Por enquanto, a Radioréi cumpriu seu dever com clara competência. Meus parabéns a essa galera corajosa.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Os intermináveis anos 80...

O tempo passa, o tempo voa, e os anos oitenta continuam numa boa. Tem gente que odeia, tem gente que adora celebrar.
Aí rola meio que aquela coisa dos filmes da saga Star Trek (Jornada nas Estrelas, para os incautos), aquele lance dos filmes pares e impares... Os anos sessenta ainda são reverenciados até hoje. Com os oitenta acontece o mesmo. Só não vejo a mesma coisa acontecendo com os anos setenta. Também pudera, essa década só teve Led Zeppelin, Pink Floyd e David Bowie de relevante em termos de música. Fora isso, só mesmo os Carpenters (cruzes!), Bee Gees (perdoe) e a Disco (blearghhhh!).
Então, pra se ter uma idéia do quanto a atual geração adora reverenciar os anos 80, essa época de frivolidades, roupas hiper coloridas, space invaders e pac mans, fiz um pequeno apanhado de cinco músicas fresquinhas, feitas por gente nova mas com cara de coisa da época em que os fliperamas ameaçavam dominar a terra. Enjoy it!

Música: "Dreamworld"
Autor/Intérprete: Rilo Kiley
Ano: 2007
Frase: "me and you and what we'd do for money" ("Eu e você,e o que faríamos por dinheiro")
Pra quem gosta de: 38 Special e Fleetwood Mac.

Música: "Hitten"
Autor/Intérprete: Those Dancing Days
Ano: 2008
Frase: "Do you really think I give a damn now that I can do whatever I want?" ("Você realmente acha que eu dou a mínima agora que eu posso fazer o que eu quiser?")
Pra quem gosta de: The Go-Go's e Bangles

Música: "Bruises"
Autor/Intérprete: Chairlift
Ano: 2008
Frase: "I tried to do headstands for you. Everytime i fell you on, yeah everytime i fell" ("Eu tentei plantar bananeira pra você. Sempre eu caia sobre você, yeah sempre eu caia")
Pra quem gosta de: The Thompson Twins e Naked Eyes

Música: "Waking Up in Vegas"
Autor/Intérprete: Katy Perry
Ano: 2008
Frase: "Shut up and put your money where your mouth is" ("Cale-se e ponha seu dinheiro onde sua boca está")
Pra quem gosta de: Pat Benatar e The Outfield

Música: "11th Dimension"
Autor/Intérprete: Julian Casablancas
Ano: 2009
Frase: "Drop your guard, you don't have to be smart all of the time" ("Baixe a guarda, você não tem que ser esperto o tempo todo")
Pra quem gosta de: New Order

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Retrô 2009 - Parte Dois

2009 foi um ano bizarro no campo musical. Vejamos:
Michael Jackson morreu sem voltar a ser o cara foda que era quando lançou Off The Wall e Thriller. E olha que ele tinha toda uma geração de fãs ilustres por aí no mundo pop, se matando para serem ao menos uma xerox pálida do que ele fora outrora. De Justin Timberlake, passando por John Legend ou Outkast, a assinatura musical do maior ícone negro da música pop (mesmo que transmutado em branco) ainda não foi, e dificilmente será copiada a altura. R.I.P. Michael.
Esse também foi o ano de figuras inclassificáveis como Susan Boyle e Maria Gadu. A primeira, uma dona de casa escocesa e baranga, com voz de canário e descontrole emocional tão evidente quanto o formato quadrado de seu rosto. Já a segunda, representante mais falada atualmente do que se convencionou chamar de nova mpb, não passa de mais uma no meio de tantas Marias Ritas, Marianas Aydares, Vanessas da Mata, Fernandas Porto e Robertas Sás da vida.
Meninas que cantam mpb e/ou samba com pontuações de samplers e pequenas gaiatices eletrônicas similares. Não se discute aqui a qualidade do trabalho dessas moças, mas sim a repetição de uma mesma fórmula, que convenhamos já está se tornando cansativa.
No cenário internacional, 2009 parece ter sido o ano das bandas derivativas. Sabe, tipo o Them Crooked Vultures, que formado por ex-integrantes de Nirvana, Led Zeppelin, e o líder do Queens of the Stone Age, acabou ficando com cara de... Isso mesmo: Nirvana, Led Zeppelin e Queens of the Stone Age.
A mesma coisa pode se dizer do The Dead Weather. Formado na sua base por Alison Mosshart, que é metade do The Kills, e por metade do Raconteurs (o guitarrista e vocalista Jack White e o baixista Jack Lawrence), o The Dead Weather se parece com o quê? Ah, você já sabe...

Bom... de tudo que chegou aos meus ouvidos esse ano, posso listar abaixo os álbuns que a meu ver mereceram destaque em 2009. São eles:

1) Jet - Shaka Rock (fizeram o disco dançante e com pegada que o Arctic Monkeys, pela lógica, faria... Mas não fez)
2) Arctic Monkeys - Humbug (lento? chapado? totalmente anti-Monkeys? Pode até ser, mas basta a terceira audição pra se entender que os meninos fizeram bem em querer crescer)
3) Muse - The Resistance (Queen, Chopin e as teorias conspiratórias de Matt Bellamy se unem numa ópera-rock como há muito não se via)
4) Móveis Coloniais de Acaju - C_mpl_te (ska descompromissado como só brasileiros conseguem fazer)
5) Wilco - Wilco (The Abum) (um desavisado que começar a ouvir esse álbum pelo instrumental de "One Wing" pode pensar que está diante de um trabalho de David Gilmour. Mas é só dar uma avançada até "Bull Black Nova" pra ver que é só o gênio Jeff Tweedy em mais um álbum inspirado)
6) PJ Harvey & John Parrish - A Woman A Man Walked By (a sempre ótima Polly Jean numa parceria mais que perfeita)
7) Pete Doherty - Grace/Wastelands (é... Carl Barat, ex-parceiro de Doherty no The Libertines deve estar reconhecendo agora o que meio mundo já sabia: ele tocava ao lado de um excelente compositor)
8) Wry - She Science (com os sorocabanos cantando em português agora, vai ficar fácil pra muita gente aceitar que aquela banda "gringa" é, na verdade, brasileira. Na mesma proporção, vai ficar difícil entender porque esses caras não emplacam nem aqui nem lá fora)
9) Sonic Youth - The Eternal (ídolos eternos dos indies, poderiam ter feito um álbum irretocável se não fosse um detalhe: The Eternal se parece demais com o anterior, Rather Ripped)
10) Julian Casablancas - Phrazes For The Young (é um disco esquisito, anticomercial, com uma exposição aos sintetizadores tão extrema que pode provocar câncer ou algo parecido. A estréia solo do líder do Strokes é um trabalho hermético e difícil de ser digerido. Não, não é genial, mas merece ser reavaliado no futuro)